Prêmio Boas Práticas de Salvaguarda do Patrimônio Cultural Imaterial

Em 2015 a i-Motirõ foi selecionada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) como uma das experiências nacionais mais relevantes de Boas Práticas de Salvaguarda do Patrimônio Cultural Imaterial. O Iphan premiou o que denominou de experiências de salvaguarda bem-sucedidas, por trazerem impactos positivos a bens culturais imateriais e que possam servir de modelo para serem replicadas.

O trabalho da associação selecionado foi fruto de uma parceria com a Escola da Mata Atlântica: a segunda edição do Almanaque da Cultura Caipira, material que reúne temas do universo das famílias da roça, cujo objetivo principal é valorizar as memórias da região de Aldeia Velha. distrito rural de Silva Jardim, interior do estado do Rio de Janeiro, e de suas áreas circunvizinhas. O Almanaque constituiu-se como um material gráfico (encarte) e sonoro (cd) recheado com as lendas, causos, anedotas, receitas, personagens e demais temas e imagens que povoam o imaginário do caipira, unindo em um material gráfico o ontem e o hoje de um povo que cisma em viver longe da cidade. Ouça aqui as faixas.

Já foram lançados dois Almanaques da Cultura Caipira, um em 2012 e outro em 2013, com uma tiragem de 500 exemplares cada um. Estes produtos são fruto de uma parceria entre vários atores sociais da comunidade de Aldeia Velha, como a escola local (Escola Municipalizada Vila Silva Jardim), a Escola da Mata Atlântica (coletivo de agroecologia e cultura livre) e o Ponto de Cultura Caipira. Os Almanaques são também os produtos mais representativos de todo esforço de salvaguarda do patrimônio imaterial realizado desde 2005 na comunidade. O povoado de Aldeia Velha tem destacada importância regional por ter sido aldeamento indígena, caminho de tropeiros e palco de uma miscigenação de culturas incluindo aí os colonos europeus, sobretudo suíços e alemãs, cujo núcleos deram origem tanto à cidade de Casimiro de Abreu, quanto a de Silva Jardim.

Neste sentido, a ação do Almanaque da Cultura Caipira teve como objetivo pesquisar, registrar e divulgar um variado material sobre quem foi e quem é hoje o caipira do pé da serra, buscando criar um material bem diverso, assentado sobre um grande impulso de pesquisa e, ao mesmo tempo, com formato moderno e acessível.

Na primeira edição, de 2012, o foco do Almanaque Caipira foi a recuperação e gravação da Mazurca, um ritmo e dança tradicional que se dançava em bailes da região até a década de 70. O público-alvo eram músicos e pontos de cultura da região, moradores de Aldeia Velha, escolas, pesquisadores, de música e público em geral. A ação promoveu encontros entre músicos da região e professores de música para relembrar versos e melodias da Mazurca, que é uma dança tradicional de origem polaca, feita por pares formando figuras e desenhos diferentes que era dançada e tocada na região antigamente. A partir dos encontros o áudio ia sendo gravado. Uma Mazurca que consta do cd do I Almanaque foi anexada neste prêmio do Iphan.

Na segunda edição, lançada em 2013, tivemos como foco as brincadeiras antigas e a cultura da infância. Assim, trabalhos com a comunidade escolar da Escola Estadual Municipalizada Vila Silva Jardim – EEMVSJ – a única escola local, pesquisando junto com as professoras as canções infantis que poderiam ser gravadas pelas crianças, além de anedotas, trava línguas etc. Também foi usado o material que vinha sendo pesquisado junto aos antigos da comunidade, sobre a história local, causos e lendas da região, tudo mediado pelo Mestre Griô Milton Machado que relatou várias histórias, indicou personagens e fontes importantes e foi locutor de algumas delas no CD. Assim, o II Almanaque da Cultura Caipira contém faixas de músicas e também de histórias, como a história do povoado recontada pelas crianças ou o causo dos ciganos, que narra o episódio de uma briga entre os ciganos e os moradores do distrito. Também foram gravadas cantigas que eram cantadas na escola há mais de 20 anos atrás como a música “A barata diz que tem sete saias de filó (…)” na voz das turmas de educação infantil que sequer conheciam a música, promovendo uma ponte entre gerações. Há, por fim, a gravação de duas músicas autorais da Banda Brejo, banda de forró pé de serra do bairro.

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