Desde o fim do último milênio, quando começamos a nos articular entre redes de ativismo e arte, nos deparamos em determinado momento com uma situação desafiante: o que acontece aos registros e documentos digitais que organizamos? Uma vez armazenados na internet, desaparecem devido à constante mudança de linguagens, aos custos dos serviços ou à falta de apoio à infraestrutura básica. Assim, perdemos não somente arquivos, mas também a conexão entre potências de encontros que se perdem na memória. Como resultado, as ideias e os conceitos interligados nesses registros foram perdidos, pelo menos em termos da sua ordem cronológica.
Justamente por isso, nomeamos essa iniciativa de Memórias Táticas como forma de repensar essas recordações digitalizadas e sua conservação por meio de gerações. Nos interessa pensar nas infraestruturas digitais de código aberto, nos arquivos, nas linguagens e nos serviços que nos ajudem a resgatar narrativas mais autônomas sobre tecnologias, histórias e plataformas. Além disso, temos como foco uma perspectiva interseccional feminista, experimentando outras ferramentas e modelos de distribuição que nos ajudem a compreender uma intervenção possível no atual cenário econômico, político e cultural brasileiro, em tempos de avanço das alterações climáticas e das tecnoligarquias.
A nossa primeira experiência de recuperação e acesso a esses arquivos baseou-se numa pedagogia feminista colaborativa, visualizada a partir da cartografia “Arquivos Táticos” (SESC Pompeia, 2018). Este trabalho reuniu projetos e pessoas em torno de uma cartografia visual que abrange uma série de publicações, eventos, festivais, meios de comunicação táticos, internet e conhecimento livre no Brasil entre 2002 e 2018. O resultado contribuiu para a compreensão dos acontecimentos em rede durante um período de cerca de 20 anos no Brasil. Embora seja importante pensar para além da ordem cronológica em contextos históricos, entendemos que a preservação da sequência dos eventos é fundamental para os estudos e as pesquisas atuais e futuras.
O nosso plano prioriza agora a organização, recuperação e manutenção de materiais virtuais (sites, arquivos, imagens e vídeos) em um formato online acessível, com possibilidade de integração com outros bancos de dados. Temos ainda como escopo atualizar e aprimorar nossa página web e o servidor de alojamento, além de explorar ferramentas de comunicação mais seguras para nossa atuação. Para isso, planejamos encontros transmidiáticos online e eventos presenciais para refletir sobre a memória/os arquivos, a economia/a manutenção (de dados), a autonomia e a política no contexto dos avanços da inteligência artificial, bem como sobre questões especulativas que nos conduzam à construção de outros imaginários mais coletivos.
Neste projeto, enfrentamos o desafio de aproximar comunidades relacionadas, interdisciplinares e intergeracionais, visando trazer à superfície suas histórias e percursos, apostando na formação de redes de colaboração que contribuam para colocar questões atuais em debate. A partir dessa troca buscamos encontrar alternativas à soberania, à segurança, à privacidade e, sobretudo, à independência, à liberdade e à horizontalidade dos saberes que a internet nos pode proporcionar, estando atentos ao cuidado mútuo e cooperativo.
Em termos de articulação em rede, o principal desdobramento do primeiro ano do projeto Memórias Táticas foi a conexão com parceiras de longa data, que resultou em uma pequena e afetuosa coalizão solidária de redes transfeministas. Estas pessoas aderiram rapidamente à nossa proposta de forma muito pronta e generosa em uma série de reuniões online que culminaram em um encontro presencial. Nestas imersões acolhemos novas pessoas e trocamos experiências sobre como iniciamos o nosso ativismo digital, num entendimento mútuo do que cada uma faz. Conseguimos assim, mapear e contextualizar as nossas práticas ao longo do tempo: as diferentes gerações, as mudanças no próprio feminismo, os nossos corpos e estilos de vida, bem como os desafios da atualidade. Sobretudo, a disposição de reunir-se para mais trocas e ações futuras.





Encontro Quantumfagia (dezembro de 2025)
Concepção e desenvolvimento
Adriana Veloso
Giseli Vasconcelos
Tatiana Wells
Tania Maria
Tiago Bugarin
Projeto viabilizado através da organização I-Motirõ, e selecionado pelo Numun Fund, uma iniciativa que distribui fundos internacionais para a sustentabilidade de infraestruturas feministas e organização de movimentos sociais.

